![]() | No início da década de 1960, Julie Mannix era uma bela socialite de 19 anos da Filadélfia, nos Estado Unidos. Vivendo como uma princesa dos contos de fada, Julie conheceu e se apaixonou por um cara chamado Frank, mas seus pais ricos acharam que ele não era o príncipe azul e fizeram o possível (e o impensável) para afastar a filha daquela paixão pós adolescência. Mas havia um agravante que lhes dava razão: Frank era casado. E, pior, Julie não sabia, mas já estava grávida do namorado. |

O pai da jovem foi o autor do livro "The Fox and the Hound", que a Disney adaptou na animação "O Cão e a Raposa". Na época, a família glamourosa realizou uma festa que foi descrita pela mídia como "a mais emocionante de uma década".
Julie e sua família levavam uma vida glamourosa

Ocorreu que durante um exame de rotina, a família Mannix descobriu que Julie estava grávida. O ginecologista contou à a mãe sobre a gravidez em vez de falar para a garota. A mãe beata fervorosa, com medo da vergonha que se abateria sobre a família, fez tudo para ocultar a gravidez da filha.
A debutante Julie Mannix tinha 19 anos quando engravidou

Como não havia a possibilidade de casamento para limpar a honra, seus pais então recorreram a medidas extremas e criaram mentiras terríveis para esconder sua gravidez. Pagaram um médico para que a diagnosticasse como "severamente deprimida", apenas para que fosse trancada em um manicômio, onde os abortos podiam ser feitos de forma legal.
O pai de Julie foi o autor de "O Cão e a Raposa"

Julie conheceu Frank von Zerneck, um rapaz judeu de 23 anos que trabalhava no mundo do entretenimento, durante aulas de teatro no verão em Westbury, Long Island. Ela se apaixonou por aquele que acabou sendo uma aventura de verão e no final da temporada ficou arrasada quando descobriu que Frank era casado. Ela ficou ainda mais devastada quando descobriu que também estava grávida.
Seus pais desaprovavam a gravidez e a mandaram para um hospício

Em 1963, os abortos eram considerados ilegais, a menos que colocassem em risco a vida da mãe ou para salvaguardar seu bem-estar físico e mental. Quando finalmente soube, Julie recusou-se a abortar, não por razões morais ou porque era católica, mas porque queria ter o bebê, o fruto de uma paixão, ainda que mal resolvida.
Julie ficou trancada em um hospital por seis meses

Nesse meio tempo, exatamente naquele em que Julie era mantida trancada em um hospício. Frank se divorciou da esposa e conseguiu fazer contato com Julie. Os dois começaram a "conversar" diariamente por meio de bilhetinhos e cartas, mas os pais de Julie descobriram e a partir dali interceptaram as mensagens.
Ela deu à luz uma menina saudável que chamou de Aimeé

Em 19 de abril de 1964, depois que a bolsa estourou, Aimeé chegou ao mundo. No entanto, ela só conseguiu vê-la por um curto período antes de ser forçada a dar a bebê para adoção.
- "Ao assinar os papéis de adoção, meu coração despedaçou. Deixei a caneta cair, me afastei e, com as pernas trêmulas, deixei minha filhinha para nunca mais."
A imagem de Aimeé nunca deixou a mente de Julie por sequer um minuto nas décadas seguintes. Mais tarde ela tentou entrar em contato com a Santa Casa, onde deu à luz, para pedir informação sobre a criança. Mas, conforme o esperado, não podiam falar nada sobre ela, pois os registros passaram a ser sigilosos no momento em que a adoção foi feita.
Julie mudou-se para Nova York para continuar atuando após o desgosto de Aimeé e o tratamento de sua família.

Julie começou uma nova vida em Nova Iorque. Tinha o sobrenome do pai famoso para ajudar, mas realmente era boa atriz e não demorou a conseguir trabalhos.
Certo dia, do nada, Frank apareceu no set e no fim das gravações conversaram e choraram a perda da filha. Ficaram juntos novamente, dessa vez para sempre.
Em 15 de janeiro de 1965, eles se casaram e logo depois ela recebeu a informação de que tinha sido deserdada por seus pais, o que logicamente não foi nenhuma surpresa.
Frank e Julie se casaram em 1965

Eles tiveram mais dois filhos, Frank Júnior e Danielle

Mas, todos os anos, no dia 19 de abril, o casal celebrava o aniversário de Aimeé

Enquanto isso, Aimeé, que passou a se chamar Kathleen Marie Wisler, foi entregue a uma família amorosa. Ela cresceu ao lado de dois irmãos que a amavam muito e tinha uma vida de conto de fadas, até que, quando tinha seis anos, sua mãe adotiva morreu de câncer de mama em 1970.
Kathy continuou sendo muito bem criada pela madrasta, com quem seu pai se casou, e que agregou mais duas filhas à família, mas o casamento era bem conturbado, cheio de brigas por questões econômicas. A mais nova integrante, Kimmy, se tornou a melhor amiga de Kathy, mas melhores amigas também brigam e um dia, durante uma dessas discussões de crianças, Kimmy caçoou:
- "Pelo menos eu não sou adotada!"
A menina correu para seu quarto e ali se trancou até que o pai chegasse do trabalho:
- "É verdade que eu sou adotada?", perguntou Kathy.
- "Ué, eu pensei que você já sabia. Sua mãe não contou? Seus irmãos também são adotados", respondeu o pai com sua peculiar calma.
Ela correu de novo para o quarto e se enfiou debaixo da coberta, mas logo o pai estava lá a seu lado perguntando gentilmente.
- "Quer conversar, meu amor?" Ela assentiu e ele: - "Nunca mais pense que você, não é minha filha. Eu nunca esquecerei o dia em que mamãe e eu fomos ao hospital para te pegar. Você estava chorando muito, mas depois, quando te entregaram para mamãe, você parou. Você sabia que éramos seus pais. Você é minha filha, querida."
O pai de voz grave tinha o poder de acalmar Kathy, mas não conseguia fazer o mesmo com a esposa e o casamento degringolou quando ela tinha 10 anos.
Em 1988, Kathy se casou com o amor de sua vida, o primeiro namoradinho do colégio, Bryan Hatfield, uma rapaz prendado que a primeira vista ela achou que fosse gay, pois sabia sapatear, dançar, cantar... Mas não era, tiveram duas filhas. Anos depois, seu pai morreu e foi aí que ela achou que era o momento de encontrar sua mãe biológica. Ela conseguiu algumas informações importantes dos Serviços Sociais da Igreja Católica da Filadélfia, o sobrenome de seu avô escritor era Mannix e teve uma filha chamada Julie: Julie Mannix, esse provavelmente então era o nome de sua mãe.
- "Somente depois que tive minhas filhas, Amanda e Kathryn, que finalmente pensei sobre minha mãe biológica."
A investigação de Kathy levou-a à página IMDB de Julie (que até hoje mantém o perfil com seu nome de solteira), que revelava que ela teve uma carreira de atriz na década de 60/70 e que se casou com Frank von Zerneck, um produtor de TV, em 1965, um ano após o seu aniversário. E tinha dois filhos, também atores.
Kathy, desassossegada e irrequieta passou vários dias, uma vez e outra, olhando as fotos daquela mulher que supostamente era sua mãe. Ela até alugou o filme "La Bamba", estrelado por Danielle, filha de Julie.
- "Veja Bryan, nós temos o mesmo sorriso, a mesma risada, inclinamos nossas cabeças da mesma forma", disse Kathy enquanto apontava Danielle na tela.
- "Não faça isso, Kathy", advertiu o marido, com medo que a esposa de decepcionasse depois. - "Não são eles!"
Mas ela já estava convencida de que sim e no outro dia, agora já estimulada por Bryan que já não aguentava vê-la tão angustiada, tomou coragem e acabou escrevendo uma carta bem discreta e neutra para Julie. Vale a pena lembrar que Kathy não conhecia as circunstâncias e nem o contexto de sua adoção. Apenas sabia que por algum motivo sua mãe não quis saber mais dela. Essa foi a carta:
Prezados Sr. & Sra. Von Zerneck:
Como faço para começar uma carta como essa? Bem, acho que vou simplesmente começar assim: nasci em 19 de abril de 1964, na Filadélfia. Com base nos documentos que os Serviços Sociais da Igreja Católica me forneceram, acho plausível que vocês saibam algumas informações sobre minha família biológica ... Não é minha intenção atrapalhar suas vidas, nem nada nesse sentido. Eu simplesmente quero ter um relacionamento com vocês em qualquer nível que se sintam confortáveis.
Por favor, conforme sua conveniência, me avise se podem me ajudar com informações adicionais.
Atenciosamente,
Kathy Wisler-Hatfield
Por um desses acasos do destino, foi Julie quem recebeu a carta. Quando ela lia o trecho "nasci em 19 de abril de 1964...", suas pernas bambearam como naquele dia em que assinou o registro de adoção. Com um nó na garganta e entre lágrima terminou de ler antes de ir procurar o marido.
- "Frank... Frank... é Aimeé... nossa filha... uma carta de nossa filha!", tropeçava a mulher nas próprias palavras embargadas pela forte emoção.
Em novembro de 2008, Kathy recebeu um telefonema de Julie, que, depois de trocarem amenidades próprias de alguém que tem um monte para dizer, mas não sabe como, disse que era sua mãe. Kathy ficou atônita por finalmente ouvir a voz daquela mulher que ela espiava fazia dias no computador. Mas esta não foi a única surpresa para ela. Frank tomou o telefone em lágrimas e disse que também era seu pai. Como assim? Kathy não entendeu nada. Não era o momento e nem o canal adequado, mas os von Zernecks disseram que eles nunca desistiram dela e que foram forçados pelas circunstâncias e que quando se encontrassem explicariam tudo.
Semanas depois da primeira vez que falou com Frank e Julie, Kathy finalmente encontrou seus pais biológicos pessoalmente.
Kathy e Julie finalmente se viram pela primeira vez desde aquele dia fatídico há mais de quatro décadas

Depois de uma conversa comovente onde contaram tudo o que haviam passado nas últimas 4 décadas, decidiram que a partir daquele dia sempre que possível se encontrariam,

- "Eu nunca imaginei que um dia me sentiria como filha novamente, e aqui estou eu, amada por dois pais fortes e zelosos que se preocupam quando meus filhos estão doentes e que não perdem uma chance de poder me ajudar", escreveu Kathy para a Revista Redbook.
Na foto familiar (esq. para dir.) Frank Júnior, Frank, Kathy, Danielle e Julie. O feioso à direita é um bicão de fotos o prendado marido de Kathy.

Kathy e Julie escreveram sua história em diferentes perspectivas emocionais no livro de memórias, "Tempestades Secretas: Uma Mãe e Filha, Perdas e Encontros".
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