![]() | Pese que esqueço nomes com muita facilidade, tenho o que chamam de memória de elefante: se eu tiver contato com uma pessoa uma única vez e só encontrá-la 10 anos depois vou saber de quem se trata, mas isso não vale de nada porque muitas vezes esqueço o que fiz de manhã e até meu remédio para hipertensão é de cartela semanal para saber se tomei ou não. |

Como conheço esta falha do meu cérebro faz muito tempo, tenho o costume de escrever um diário com as coisas boas e ruins que acontecem na minha vida, para mais tarde poder me situar no tempo e para evitar possíveis burradas futuras. Sei que não estou contando nada de novo, a memória humana constantemente se equivoca, e isso é fácil de demonstrar cientificamente. Efetivamente, basta conversar com duas pessoas diferentes que foram ao mesmo evento para comprovar, entre outras coisas, que elas não foram ao mesmo show e que a memória humana não só é seletiva, senão que inclusive pode guardar também lembranças falsas.
Este é um fato tão conhecido que os neurocientistas já não veem como um simples erro uma lembrança distorcida dentro da narração de uma pessoa, senão que incluíram a análise desses "erros" como uma ferramenta muito útil para elaborar o psicodiagnósticos do paciente: por que recorda as coisas precisamente assim? Quais são as causas que o levam a equivocar isto e não aquilo? Por que não mencionou algo tão relevante como isto?
Sabemos que a memória nos engana quando, por exemplo, nos encontramos em uma reunião familiar e alguém -pode ser a irmã ou irmão-, jura e perjura que chorávamos vendo o filme da Xuxa. Algo que já não lembramos e que nem sobre tortura confessaríamos se caso viéssemos a lembrar, porque tem certas coisa que preferimos apagar. Mas também há muitas coisa que ficamos felizes quando são reaviavadas em nossas lembranças opacas.
Em resumidas contas, a falibiliade da memória humana se materializa à cada momento. Não obstante, no sistema de justiça atual outorga-se um grande peso aos depoimentos de testemunhas e na vida cotidiana existem verdadeiras batalhas conceituais cujos argumentos se baseiam na "certeza" que têm aqueles que discutem a respeito de suas lembranças e experiências.
Então, o que fizeram sete pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine foi testar um grupo de pessoas com uma memória autobiográfica altamente superior (HSAM, por suas siglas em inglês), em um estudo publicado na revista PNAS.
Sim, existem (poucas) pessoas que têm uma capacidade impressionante para recordar eventos de sua vida, inclusive eventos muito longínquos. Tomemos como exemplo Frank Healy, uma das cinquenta pessoas confirmadas com HSAM nos EUA, que, quando perguntam uma data a esmo, digamos 25 de março de 1996, pode reconstruir suas ações daquele dia tim-tim por tim-tim, incluindo mesmo as mais insignificantes: que tomou no café da manhã, que canção tocava no rádio enquanto se dirigia para o trabalho, etc.
Bom, pois inclusive entre este grupo de pessoas com memória autobiográfica excepcional encontrou-se que seu cérebro reconstrói lembranças incorporando eventos posteriores a estes -isto é, "contaminando" a lembrança inicial-, e que também usam associações para recordar, o que necessariamente introduz desinformação ou variantes no que "verdadeiramente" tenha acontecido.
Em um dos testes realizados no estudo, os voluntários foram informados de que existia um noticiário dando conta da queda de um avião da United 93 no estado da Pensilvânia em 11 de setembro de 2001. Algo que em realidade nunca aconteceu e, lógico, cujas imagens reais nunca existiram. Quando perguntados posteriormente se eles se lembravam de ter visto as imagens antes, 20% dos indivíduos com HSAM indicaram que sim, em comparação com 29% das pessoas com memória normal.
Segundo os pesquisadores, existem várias formas variadas de "implantar" falsas memórias nas pessoas. Uma delas é um procedimento conhecido como "sugestão de falsa informação", que foi usado no estudos. Esse técnica envolve questionar a presença de um estímulo compatível durante um fato vivenciado de foram sugestiva. Quanto mais provável e conveniente for esse estímulo maiores serão as chances de serem incluídos na memória da pessoa.
O resultado do experimento, pois, reduz-se a uma frase: "Ninguém é imune a ter falsas lembranças". O que já sabíamos agora é comprovado cientificamente, evento que pode significar uma ameaça para todas as atividades que se baseiam na memória de acontecimentos passados como ferramenta principal. Isto é, diante da falibilidade do cérebro humano, a justiça poderia condenar um réu acusado por uma única testemunha presencial do crime?
Ao final, o que se destaca uma vez mais é que a identidade do ser humano, intimamente relacionada à memória, é uma atividade narrativa, e como tal, inconstante, segundo as perspectivas desde as quais é abordada -situações emocionais, distância temporal, desejos e expectativas que se têm sobre si mesmo, etc.-.
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Comentários
O problema da memória é que é uma coisa meio... variável.
Eu, por exemplo, sou péssima pra lembrar nomes. Sou péssima também pra fazer associações de tempo, tipo, "5 anos atrás...". Eu tenho que pensar ano a ano o que aconteceu pra saber o que eu fazia 5 anos atrás, ou lembrar que entrei na faculdade em 2007, então há 5 anos eu estava no segundo ano, e daí me lembrar o que acontecia nessa época.
Agora no trabalho, quando preciso, por exemplo, me recordar de números de referência a clientes ou contratos, quais as condições comerciais e as cláusulas, me lembro muitíssimo bem, de forma a assustar alguns clientes. Até eu não precisar mais trabalhar nisso, daí em dois dias já me esqueci completamente...
Eu não tenho uma boa memória.
Invejo quem tem boa memória, ou pessoas metódicas (?).
E minha memória ruim piora pelo fato de minha mente misturar e confundir muito as coisas, ai eu não fico sabendo se foi falta de atenção ou memória ruim, ou os dois.
Meu maior problema é que eu crio uma confusão com as memórias, e posso provar isso com qualquer pergunta simples que me façam sobre o que eu fiz de manhã. Na escola também eu faço muita confusão com as matérias, misturo tudo.
Lembraças falsas = reprogramar o seu cerebro para ficar da forma que voce quer.
Não importa se sua vida é uma droga, voce sempre pode fazer seu passado ser maravilhoso injetando muita memoria falsa.
"Lembranças falsas", passo por isso. :?
Acho que me sinto melhor, obrigado. V :lol:
A minha memória é horrível. Horrível mesmo. Tenho que passar por um caminho mais de vinte vezes para gravá-lo, não me lembro do nome das pessoas, esqueço datas, esqueço o que tenho que fazer,já aconteceu de esquecer minha própria idade e data do meu aniversário. Como diz a famosa frase: "só não esqueço a cabeça porque está colada ao corpo". Tenho que estudar muito para gravar as informações que recebo na faculdade. Sempre fui assim. E não é porque não presto atenção ou porque sou desligada, nada disso, a minha memória é realmente horrível.
Pode repetir a pergunta, por favor?
Minha memória é um desastre. A de curto alcance então...
O inferno da minha vida é minha memória. Lembro de ocasiões, detalhes, datas e muita coisa. Quando cito, as pessoas dizem "Ta inventando", mas quando provo ai a coisa complica.
Lembro, por exemplo, de um dia de setembro de 2004, haver entrando numa pagina procurando material sobre criptozoologia e ter dado de cara com o Luiz mostrando um site horrivel que ele acabou comprando. Nem sabia que estava no MDig, só 3 anos depois vim a saber. Meu nick na época era Animal (referencia sórdida da minha ex-esposa sobre sexo... Esquece!!! Esquece!!!)
E mais várias coisas.
"Tomemos como exemplo Frank Healy, uma das cinquenta pessoas confirmadas com HSAM nos EUA, que, quando perguntam uma data a esmo, digamos 25 de março de 1996, pode reconstruir suas ações daquele dia tim-tim por tim-tim, incluindo mesmo as mais insignificantes: que tomou no café da manhã, que canção tocava no rádio enquanto se dirigia para o trabalho, etc."
Eu, ainda, digo o dia da semana em que caiu, dependendo da data.
Guardo lembranças de quando tinha um ano de idade.